sexta-feira, agosto 04, 2006

A Heroína Santa Isabel



Há coisas difíceis de explicar… e não me estou a referir a grandes mistérios físicos ou teológicos… nem sequer a questões sobre a essência do ser humano… há coisas simples que também são difíceis de explicar. Pensei nisto depois de ver The wind that shakes the barley, de Ken Loach, a propósito de algumas associações mentais que me surgiram, inexplicavelmente, entre Portugal e a Irlanda. Não que a associação entre os dois países não possa ser evidente, quer a níveis artísticos, quer a níveis sociais. De um dos lados está a esquerda radical irlandesa traída pelos Blacks and Tans; do outro lado está a esquerda radical portuguesa, responsável… pela traição aos ideais democráticos da revolução. A relação entre uns e outros é muito ténue, pois os primeiros são os heróis e os segundos os vilões na História de cada um dos países. Mas uma coisa une estes dois momentos da História da Irlanda (a luta pela independência) e de Portugal (a revolução de Abril) – a traição. A traição à esquerda irlandesa e a traição da esquerda portuguesa. E lembrei-me da Rainha Isabel e da sua frase icónica: “são cravos, senhor…” Que ideologias são estas que levam alguém a ordenar a execução de um irmão? Que ideologias conhecidas valem a destruição a que a sua implementação obriga? Poucas. Liberdade é um conceito demasiado vago na boca de ideologistas. Mais vago ainda na boca de políticos amadores. Irrelevante na boca de políticos iletrados. E são estas pessoas que estão à frente do país – do nosso país, porque há muito que a esse nível não há comparações possíveis entre os dois países. Ken Loach elegeu os seus heróis. Nós canonizámos alguns nomes directamente associados à revolução e pouco mais… os nossos heróis lutaram na prisão de Peniche e na Cinemateca Francesa e pararam as chaimites nos semáforos de Lisboa… os nossos heróis falaram muito e quando a oportunidade surgiu pouco fizeram. Não há qualquer relação entre a esquerda radical de Loach e a esquerda radical portuguesa… o que há é uma traição comum, a traição a um país. E o filme de Loach, mais do que mostrar um herói e a sua causa, mais do que exaltar a esquerda (irlandesa ou outra qualquer), mostra as sucessivas traições a um país… a traição dos que por ele lutavam e a traição dos que nele viviam… O caminho para a Guerra Civil é mais relevante que a própria Guerra Civil? Sim, porque não há forma de explicar uma guerra em que ambas as partes lutam pelo mesmo objectivo. Em Portugal houve cravos em vez de tiros e nem um Verão quente nos atirou para a guerra civil… de guerras inúteis estávamos já fartos e faltavam forças para uma guerra ideológica…

Quero Casar com a Kim Deal


Antes da última música, Stuart Murdoch disse qualquer coisa como: “Esta é uma música antiga… as três primeiras filas não se vão lembrar.” A meia cidade e três dias de distância, quando os Pixies tocavam o Where Is My Mind?, algumas pessoas à minha frente acenderam e ergueram os isqueiros ao som da música. Qual a ligação? A velhice evidentemente. Aquela que já me atinge e aquela que me vai atingir, respectivamente.
Eu cresci com ambas as bandas. A grande diferença entre uma e outra é que uma tinha acabado de começar a editar discos quando comecei a ouvi-la, enquanto a outra já tinha acabado e não havia, na altura, a mínima hipótese de se voltarem a reunir. Para além disso, ambas estavam (e continuam a estar, de certa forma) associadas à adolescência… uma fase passageira. É claro que esta ideia de passageira é ridícula, e pouco sentido faz analisá-la… cada um que o vá percebendo com o passar dos anos. A verdade é que os fieis se mantém unidos a cada uma das bandas (ou às duas)… as décadas passam e só os fieis ficam. Mas isso também é uma evidência pouco interessante de analisar…. Porque o que une estas bandas é o facto de pertencerem a momentos da nossa vida e o facto de a qualidade que tinham para nós na altura resiste a qualquer análise fria de critico de diário português. Há um factor emocional que transcende o resto… como para alguns com os Pink Floyd… Um dia os Pixies poderão representar para mim o mesmo que os Pink floyd representam para o meu pai… é uma ideia odiosa, mas com a qual tenho que lidar… um dia, quando os Pixies voltarem a tocar em Lisboa, em ligarei o telemóvel e erguê-lo-ei ao som de Caribou. E alguém atrás de mim, mais novo, reparará na discrepância temporal entre mim e ele… e depois, alguns anos depois, quando os Belle and Sebastian voltarem a Lisboa com a formação original, eu gritarei para a Isobel: “casa comigo”, e o elo entre mim e a banda será ainda maior, porque eu ouvi-os desde do princípio. Eu estava lá desde o princípio. Alguém que tenha visto os Pixies em 91 compreender-me-á…

sexta-feira, maio 19, 2006

Num canto, encostado ao balcão


Vi os dEUS tocarem no Ambassador em Dublin… foi o meu primeiro concerto (e até agora único) no estrangeiro. A primeira coisa que estranhei foi a calma entre o público… ninguém correu para as primeiras filas, ninguém empurrou ninguém… as pessoas chegaram, ocuparam os espaços vazios e esperaram pelo concerto… e durante a primeira meia hora do concerto ninguém se mexeu muito exceptuando os naturais aplausos… mas os dEUS deram um concerto do outro mundo, deram ênfase às distorções em músicas como For the Roses, Fell off the Floor, Man, Sister Dew (sim, até esta passou a ter guitarras distorcidas), Memory of a Festival ou Theme from Turnpike (que vai-se a ver e é um hino de distorção pura). Se durante meia-hora pouca ou nenhuma agitação houve entre o público, durante a hora seguinte foi o caos total… e quando o Barman acaba de tocar a música anunciada como a última do encore e grita para o Klaas Janzoons: “Fuck it, play it”, e os primeiros acordes do Suds and Soda começaram a sair do violino, bem, aí foi a revolução (e é de uma revolução que precisamos para comunicar)… Porquê falar de um concerto que aconteceu em Novembro, num país civilizado? Porque é necessário explicar que nesse concerto os dEUS estiveram brilhantes e só por isso conquistaram o público… foi preciso um concerto do outro mundo para pôr aquele público em ebulição, aos saltos, à porrada com os seguranças, a atirar cervejas à cara uns dos outros… e qual a relevância disto? Bem, lembrei-me deste concerto quando os Artic Monkeys subiram ao palco do Paradise Garage e aos primeiros acordes já tinham o público na mão… não só no sentido do lugar comum que é a expressão, mas literalmente… uma sala cheia rendida desde os primeiros acordes… e os Artic Monkeys também deram um grande concerto… só que eles deram um grande concerto porque o público assim o exigiu… como se pode falhar quando o público já se rendeu ao primeiro acorde da noite (o alcoolismo da Chan Marshall foi giro, as discussões entre as irmãs Deal valeram o dinheiro do bilhete…)? Foi o público que fez os Artic Monkeys darem um grande concerto e, apanhados de surpresa por esta recepção, não tiveram outra alternativa… a meio do concerto o vocalista Alex Turner estava tão admirado com a reacção do público que foi perguntar a alguém como se agradecia em português… e lá vieram uns obrrrigados que pareceram sentidos, nem que o sentimento fosse única e exclusivamente o de espanto… Assim se vive por cá… Nada de grandes exigências… apenas pedimos noites das quais não nos possamos esquecer… e por entre a turba adolescente na sua maioria, eu lá estava, num canto encostado ao balcão, para nunca mais me esquecer da primeira vez que vi os Artic Monkeys…

sábado, abril 29, 2006

Arte Popular Bruta


Popular culture no longer applies to me
Popular culture no longer applies to me
Popular culture no longer applies to me
Popular culture no longer applies to me

Ainda a propósito de Art Brut e das letras das suas músicas, não pude deixar de pensar na verdade do refrão acima transposto… é de facto verdade que não há nada na dita cultura popular que se aplique a mim… Não é que eu seja um entendido em sado-masoquismo, mas parece-me extremamente debilitante pensar que imagens como estas podem corresponder à ideia de sado-masoquismo (estas imagens podem ser adquiridas através de um número fácil de decorar e ostentadas orgulhosamente no telemóvel). Nem é necessário entrar em detalhes sobre a qualidade ou a sensualidade das fotografias… cada um que se masturbe a pensar no que quiser… Aquilo que é verdadeiramente deprimente é a trivialidade com que se tratam os assuntos nos dias que correm. Não é o sado-masoquismo que me preocupa, mas o resto… as deambulações mediáticas de assuntos sobre os quais existem apenas ideias vagas e que nunca são realmente aprofundadas, deixando no ar a ideia de que se sabe muito sobre uma coisa da qual realmente nada se sabe… lembra-me como há alguns anos, aquando de um dos renascimentos do punk (aquele renascimento dos Green Day e dos Offspring) se falava numa nova tendência da cultura popular, uma rebeldia contra o conformismo social… a verdade é que não só a ideia não era nova, como as bandas que encabeçavam esse renascimento cresceram dentro das instituições que demonstravam o conformismo social estabelecido (aka MTV)… contra o conformismo eram os Fugazi, mas desses não vale a pena falar… desses e de outros… dão mais trabalho… tal como agora qualquer menina de cabedal é uma sado-masoquista, também na altura qualquer um com cabelo pintado era punk… e se se pensar a sério no assunto, há uma tendência cada vez maior para usar generalidades para convencer as pessoas de que se pode conhecer uma realidade através de uma imagem no telemóvel… da mesma maneira que uma menina de cabedal é uma sado-masoquista, também uma pessoa de preto é um gótica, uma pessoa de preto e cabelo comprido é um metaleira e qualquer mentiroso é um político… as coisas têm uma razão de ser, uma história que as explica e sustenta… e essa “essência” é o mais importante. É também aquilo que nos querem roubar… aliás, aquilo que nos estão a roubar quando nos falam em arte popular (a cultura da juventude, segundo se diz). E quando, como no caso do sado-masoquismo para telemóvel, a arte popular acha por bem fugir aos padrões (ser realmente rebelde e dar uma oportunidade aos desviados do sistema), então é o descalabro. Os desviados a que se destinam estas fotos, são os mesmos desviados que t~em gatos bébes como wallpaper, que sacam Iron Maiden da net e compram cds da Shakira e que pensam que a guerra fria é uma sobremesa de restaurante chique... Todos iguais, tudo calmo... como se gosta.

Mais uma cave e o tempo que passou




Se o hip-hop é o som da rua e o house (e todas as suas aberrantes variações) é o som da noite, então cada vez mais o rock se torna o som de quartos escuros e bafientos com portáteis a fazer downloads ininterruptamente. E porque às vezes é preciso ver luz natural, sai-se de casa para ver como funcionam ao vivo as músicas sacadas durante duas noites de espera ansiosa… mas vale tudo a pena, se a alma for surpreendida com uma banda como os Art Brut…Na verdade só se é surpreendido quando se perde o comboio, quando se vai a um concerto porque se confia na opinião (e trabalho – obrigado ao sr. Carlos Matos) de outros e sobretudo quando a idade, se bem que não muito avançada, já vai deixando as suas marcas de conformismo… Já lá vai o tempo em que os concertos eram preparados com duas semanas de antecedência… Já lá vai o tempo em que se tinha que saber as letras das músicas de cor para poder apreciar um concerto em condições… Já lá vai o meu tempo… ou pelo menos assim pensei naquela cave (mais parecida com uma garagem ampla) onde os Art Brut me surpreenderam… e onde a primeira fila me fez pensar em tempos em que não era foleiro ir para um concerto com a t-shirt da banda porque eram tão difíceis de arranjar que demonstravam a total dedicação à música, não de uma banda particular, mas à música enquanto religião própria… e por momentos também quis estar naquelas primeiras filas, a saltar e a gritar as letras de cada música como se elas realmente me pertencessem… como tantas vezes fiz noutros tempos… e vou voltar a fazer na esperança de ter a oportunidade de apanhar um concerto tão bom como aquele que os Art Brut deram… Seguem-se os Artic Monkeys e para eles vou estar preparado. Se para uns Pop Dell'Arte a preparação já estava feita (afinal eles pertencem a uma geração ainda mais velha que a minha), para as novas bandas que todos os dias vão entrando em pcs por esse país fora vai sendo preciso preparação...

segunda-feira, abril 10, 2006

Sobre a Arte na Pop


…no país onde a ministra da educação quer abrir as portas do Teatro D. Maria II aos jovens, com peças moralmente recomendáveis que ensinem os jovens a pensar da maneira correcta (segundo interpretação de Jorge Silva e Melo); num país onde os jovens licenciados, para arranjarem dinheiro para ir ao teatro (e para comer qualquer coisita de vez em quando), têm que estar concentrados nos códigos de barras e no peso da fruta; no país onde não se podem publicar livros de crítica literária, porque os objectos de análise são maus e a análise crítica não pode ignorar isso (outros livros terão sido censurados por pôr em causa os bons costumes); no país em que a ignorância (para não falar de coisas como corrupção e suas implicações) continua a ser apreciada e recompensada, como provam os Majores, as Fátimas, os Isaltinos e as Damascenos; no país onde os mais nobres cronistas fecham jornais de referência com a apologia ao salazarismo, porque nesse tempo nem todos podiam falar e hoje em dia, com a chegada da Internet e de espaços como este, qualquer um (foi o senhor que escreveu) pode ridicularizar os acima referidos nobres cronistas (incomodativa esta coisa da liberdade); no país onde as hierarquias dentro das empresas, públicas e privadas, são definidas pela proximidade sanguínea (ou pelas habilidades orais, como prova a senhora brasileira que passou de empregada de café para secretária de um ministério); no país que vive ardentemente Fátima e apregoa revoluções enquanto espera vez para pagar na portagem; no país onde a Europa começa (ou acaba, vá-se lá saber), pergunto-me muitas vezes porque é que não faço as malas e vou para Lanzarote tornar-me num português orgulhoso… E se por vezes (quase sempre) é difícil arranjar desculpas para explicar este contínuo orgulho que sinto em ser português, outras vezes as respostas surgem e não deixam espaço para outro sentimento… às vezes, numa cave de Leiria, os Pop Dell’Arte dão um concerto e tudo o que de mau há neste país se esvai… porque, na verdade, como se pode explicar a alguém estrangeiro a importância dos Pop Dell’Arte para um português? Como se pode explicar a alguém os Wraygunn ou o Legendary Tiger Man (sim, porque eles são também uma extensão daquilo que o Paulo Furtado era – e, sobretudo, daquilo que pensávamos que ele era… porque só neste país é que é difícil sobreviver numa cidade universitária quando se gosta de música)? Como se explica a alguém Fernando Pessoa (que mais do que todos os outros poetas resiste às tentativas de tradução)? Como se explica a alguém o prazer de viver neste país (sim, porque ao contrário do que se pensa, ainda há uma maneira muito particular de viver neste país)? E no dia em que o Sporting perde com o Porto (curiosa arbitragem e curiosas lesões dos árbitros), não pude deixar de pensar no meu orgulho nacional como comparável ao meu sportinguismo… Lembrei-me de Alkmaar e não pude de deixar de fazer a comparação com aquela cave onde os Pop Dell’Arte estavam a tocar… porque no fundo, a minha condição de sportinguista está cada vez mais próxima da minha condição de português… um sportinguista nasceu para sofrer, para viver sempre entre o tudo e o nada… e um sportinguista será sempre sportinguista, nas vitórias e especialmente nas derrotas (à saída da final da Taça UEFA, dizia-me alguém bem mais inteligente que eu – “como é que é possível sentir-me mais sportinguista agora do que antes do jogo?” E é essa a verdade, infelizmente, em relação a Portugal… Quanto mais inúteis e miseráveis são as vozes que tomam conta deste país, quanto mais derrotas sociais e culturais se infligem neste país, mais português me sinto, mais orgulhoso fico com aquilo que de bom há por aqui …e dizia o professor António Feijó, numa entrevista recente à revista Pública, que uma das características de ser português era não saber o que é o futuro – amanhã será igual a hoje e o que ficou para trás não é muito diferente do que há hoje… e se ele tem a sua razão, eu terei que dizer que ainda acredito num futuro profundamente diferente… num corte profundo com este caos de ignorância que inunda o país… e acredito porque ainda há caves onde os Pop Dell’Arte (ou os Wraygunn, ou o Legendary Tiger Man) ainda tocam…

quinta-feira, março 30, 2006

De Deusas e outras coisas


She loves Ken Loach's KES...

Some of her favorite actors and musicians are Joy Division, Boards of Canada, Kate Winslet, Chloë Sevigny, Kathy Burke, Tom Cruise, Steven Spielberg, The Sex Pistols, Patti Smith...

Informação retirada de: http://www.miserablelie.com/morton/biography.html

terça-feira, março 28, 2006